Reflexões Bíblicas

Vai ao encontro (Chico Machado)

Terça feira da Quarta Semana da Quaresma. Abril chegou, semeando chuvas intempestivas e um calor característico da estação do verão. O Outono ainda não deu as caras. 1º de abril. Um dia que, em várias partes do mundo, celebra-se o “Dia da Mentira”. Se bem que, embora não estejamos comemorando, ela se faz presente rotineiramente no meio de nós, agora com uma nova roupagem e denominação: “fake News”. Embora criado como um dia de graça e brincadeiras, estamos convivendo com pessoas que se especializaram maldosamente em fabricar notícias e informações falsas, no intuito de claramente prejudicar as pessoas atingidas, como é o caso, por exemplo, do Padre Júlio Lancellotti, que tem experimentado na própria pele tais inverdades. Ainda bem que “a mentira tem pernas curtas”, mas que faz um estrago, ah faz!

Em clima de Quaresma, estamos vivenciando apenas o 28º dia na travessia de nosso deserto rumo à Páscoa do Cristo Ressuscitado. A experiência do povo hebreu, rumo à libertação, na travessia do Deserto do Sinai, serve-nos como paradigma para as nossas reflexões. Lembrando que Moisés demorou 40 anos para atravessar o deserto com os israelitas, que fugiam da dura escravidão no Egito. Foi preciso passar por esta provação, deserto adentro, já que, segundo alguns exegetas, havia entre eles algumas pessoas que dificilmente iriam se converter à nova vida na Terra da Promessa. Assim, Moisés sacrifica o seu sonho de lá chegar, já que morreu pouco antes de entrar no seu destino, a Terra Prometida.

A numerologia faz parte da vida e da história do povo semita. Na Bíblia há vários números importantes e significativos. O número 40, por exemplo, é um destes números que norteou a vida do povo de Deus ao longo da história. Biblicamente, o número 40 revela o propósito de Deus em tempos de transformação. Foram 40 dias de chuva no dilúvio para renovar a face da terra; 40 anos de Moisés no Sinai, em sintonia direta com a presença divina de Deus orientando o povo; 40 dias e 40 noites de jejum de Jesus no deserto da Judeia, se preparando para Sua missão. Em cada um destes desafios, podemos ver a manifestação (Teofania) de Deus e Seu plano para salvar a humanidade.

Quaresma é bem isto: quarenta dias de caminhada como preparação para chegarmos à Páscoa definitiva de Jesus de Nazaré, em que, pela força e intervenção divina, a vida venceu as forças da morte. Além desta ênfase no número quarenta, temos um código de Leis, às quais devemos submeter as nossas vidas, se quisermos caminhar dentro da proposta de Deus. O Decálogo tem esta finalidade de nos sintonizar com o projeto libertador de Deus, que Jesus veio nos anunciar. Todavia, o problema maior é quanto à interpretação que algumas lideranças religiosas faziam e ainda fazem, quanto ao cumprimento dos Dez Mandamentos. É o que podemos observar no dia de hoje, com o texto Joanino que a liturgia nos oportuniza refletir.

Nesta perícope do evangelista São João, podemos ver que os judeus ficaram irados, revoltados com Jesus, simplesmente porque Ele havia curado, em dia de sábado, um homem paralisado em sua cama. Impiedosamente, nem se importaram com o bem que Jesus havia proporcionado àquele pobre homem. O mais importante para eles não era a pessoa humana, na sua limitação da doença, mas o cumprimento fiel da “lei do sábado”. Para a religião judaica a santificação do sábado era considerado um dogma, isto é, uma verdade de fé, e seu valor tradicional encontra-se fundamentado nas primeiras páginas da Bíblia: “Deus concluiu no sétimo dia a obra que fizera e no sétimo dia descansou, depois de toda obra que fizera. Deus abençoou o sétimo dia e o santificou, pois nele descansou depois de toda a obra de criação” (Gn 2,2-3),

Reza a Lei que, “Não farás nesse dia nenhum serviço, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu escravo, nem tua escrava, nem teu animal, nem o estrangeiro que estiverem morando em tuas cidades”. (Ex 20, 10) Entretanto, Jesus não olha para a Lei em si, mas para a pessoa humana que está ali à sua frente. Ele vai ao encontro do outro que está ali e necessita de cuidados especiais. Para Jesus, o outro é muito mais importante que qualquer lei, preceitos, dogmas e tradições. Ele tinha a consciência e a clara noção de que naquele homem paralítico está simbolizado a figura do povo oprimido e paralisado, à espera de alguém que o liberte. É por este motivo que Ele vai ao encontro do paralítico, e lhe ordena que ele próprio se levante e ande com suas próprias pernas, encontrando sua liberdade e decidindo seu próprio caminho. Ciente da sua unicidade divina com o Deus criador de tudo e de todos, para Jesus e para seu Pai, o mais importante é a vida e a liberdade. Elas estão acima até mesmo das leis religiosas e da opinião de quaisquer autoridades. “Por isso, os judeus começaram a perseguir Jesus, porque fazia tais coisas em dia de sábado”. (Jo 5,16)

Luiz Cassio

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